domingo, 8 de agosto de 2010

a mulher sem sonhos
obrigada a morar dentro da defuntinha menina
que em sua crua curta vida rica
enxugou cores de gestos
ensaiou poemas maiores
criou canto confiante
e todo mundo acreditou.

certo dia sua grande amiga
filha do acaso
irmã da sorte
lhe botou numa mesa de sonhadores
intelectos suaves
opniões vorazes
sagazes pessoas sem graça

a mulher muda
de dentro do seu antropocaixão infantil
exibia sua pele triste

eu quase nunca mais vi sua gargalhada
sua casa de expandir
e ela, sem sonhos
engoliu a destoância
deixou escapar vicências desfecundas

por baixo do olho alegre morto de menina
o olhar triste da mulher mortificada
desproprietária de escolhas

eu tentei te alegrar
mas já ainda nem sou mulher pra saber
das palavras que agora te arrancam gengivas pra fora da boca

e no leito velaste meu sonho
que nunca quis tanto ser seu pai

como qualquer sincera dor arranca a lógica de nossas invenções
e pouco importa se me comeram e me cuspiram

tens por pai os pés, mulher
mais uma vez, sobre nós

não sem antes olhar bem pros olhos dele - dois olhos se enxergando em preto-e-branco no quarto escuro - como se fosse possível arrancar de um olho de homem qualquer sinceridade duradoura. boba que já não era, mesmo quando acreditava nesses mitos, sabia que no fundo era mesmo só a crença dela que valia de alguma coisa.
saber, saber mesmo, houve uma vez sequer que soubesse.
era sempre sua crença servindo de sacrifício pro rito.

fabricava hóstias do próprio corpo para engolir antes de cada.
a temperança

numa festa
qualquer no apartamento de qualquer um
eu notava tudo escorada-quase-escpndida numa pilastra branca e fria como você.
meu olhar pequeno misterioso furado encontra o do novo moço, olhar maciço fechado.
e, como onda grande batendo em pedra marrom, depois do ato do fato cada um continuou sendo;
a onda sentindo suave calor.
a pedra sentindo inteiro breve frescor.
noite seguiu iteira alternância de frio e quente.

eu pensando sobre buracos de peneira.
como já foi dito por qualquer filósofo
sentido por quase todos os químicos
calculado por um ou dois poetas
e cantado por bons pedreiros:
'o céu foi feito só para que eu saiba o quanto infinitamente sou pequena'

e foi pensando nisso que os pilotos decidiram notar
que muitos e muitos seres enxergam quase todas as coisas.

todo dia quitado pensaremos três vezes antes de pensar em amores vendidos.
amores a granel em olhos de
motoqueiros que reservam tempo para observar seres desmotorizados.

num mesmo espaço chovia em três mulheres nuas.
não eram lésbicas, amigas ou colegas de natação.
três mulheres que se conheceram num ponto de
ônibus e, conversa-vai-conversa-vem,
ficou acertado o banho
coletivo mais individual tomado aqui como exemplo.

uma delas era eu, que já nem mais sou; pois que mudei de idéia
e, soubesse que mudaria, não teria tirado a roupa numa casa tão desconhecida.

eis que as três, cercadas por azulejos sujos, sem roupa ou assunto pra lhes encobrir,
debaixo d'água se revezavam sem deixar que o ar-entre-corpos esvaziasse.
banho indo e a neblina nos fez quase esquecermos que havia alguém na solidão íntima que cada qual vigiava para si.

banho era minha velha tecnologia de evaporar pensamentos corriquentos.
era entrar na caideira de gotas e pensar em tudo o que não se pensa em pensar.
quando pequena demais para ficar presa em frestas de lógica, meus banhos eram sempre cenários descontrolados.

o que nunca consegui foi abrir os olhos debaixo d'água.
óculos até já foram tentativa de deixar as gotas chegarem mas perto dos olhos.
será que peixe consegue deixar o ar entrar no olho?
ou não tem pálpebras porque também não conseguiria ver debaixo d'água ?

esses eram meus pensamentos quando a moça magra barriguda pediu licença pra enxaguar o condicionador. eu dei.
acharam quase absurdo eu não usar condicionador.
acharam nojento eu descalça.
acharam mofo na minha toalha.
achei que era um complô.
acho que nunca contei pra ninguém que um dia topei um banho com duas pessoas do mesmo sexo, sem amor nem homossexualidade...

pensei nos dez mandamentos e nos desmandamentos do meu catolicismo abstrato.

o banho acabou por convenção das outras duas.
eu sempre sou demorada...
depois que vestimos as roupas , peguei minha toalha mofada
e talvez alguma micose, e fui para casa.

no caminho vi um besouro olhando a lua.
o céu para ele deve ser maior ainda, logo: ele deve saber melhor melhor do que os filósofos o quanto sou pequena mesmo parecendo tão grande ao lado de um besouro menor que meu olho.

mas no fundo ou no raso tamanho é tudo um