a mulher sem sonhos
obrigada a morar dentro da defuntinha menina
que em sua crua curta vida rica
enxugou cores de gestos
ensaiou poemas maiores
criou canto confiante
e todo mundo acreditou.
certo dia sua grande amiga
filha do acaso
irmã da sorte
lhe botou numa mesa de sonhadores
intelectos suaves
opniões vorazes
sagazes pessoas sem graça
a mulher muda
de dentro do seu antropocaixão infantil
exibia sua pele triste
eu quase nunca mais vi sua gargalhada
sua casa de expandir
e ela, sem sonhos
engoliu a destoância
deixou escapar vicências desfecundas
por baixo do olho alegre morto de menina
o olhar triste da mulher mortificada
desproprietária de escolhas
eu tentei te alegrar
mas já ainda nem sou mulher pra saber
das palavras que agora te arrancam gengivas pra fora da boca
e no leito velaste meu sonho
que nunca quis tanto ser seu pai
como qualquer sincera dor arranca a lógica de nossas invenções
e pouco importa se me comeram e me cuspiram
tens por pai os pés, mulher
tens por pai os pés, mulher! tens por pai os pés!
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